Sete Lagoas é uma cidade que produz riqueza. Segundo o IBGE, o município registrou PIB per capita de R$ 65.543,81 em 2023. Mas desenvolvimento econômico não significa que todas as famílias tenham o mesmo acesso a uma alimentação adequada. Existe outra Sete Lagoas, menos visível nos grandes indicadores econômicos: a das famílias para as quais manter diariamente uma alimentação suficiente, saudável e nutritiva ainda pode ser um desafio. E quando há crianças nessas famílias, a questão deixa de ser apenas social e passa a ser também uma questão de saúde e desenvolvimento.

Mais de 2 mil famílias em risco de insegurança alimentar grave

Um dos instrumentos mais recentes disponíveis para compreender essa realidade no município é o CadINSAN ? Indicador de Risco de Insegurança Alimentar Grave Municipal, desenvolvido pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. Na edição de 2025, publicada em 2026, foram consideradas 14.972 famílias inscritas no Cadastro Único em Sete Lagoas. O modelo estimou que 2.045 famílias ? 13,7% do universo analisado ? estavam em risco de insegurança alimentar grave, considerando em sua renda os recursos provenientes do Programa Bolsa Família. O mesmo modelo realizou uma simulação retirando a renda proveniente do Bolsa Família. Nesse cenário, o número estimado de famílias com insegurança alimentar GRAVE aumentou para 2.627 famílias, ou 17,5%. Esses números não devem ser somados, pois eles representam dois cenários diferentes. Se somarmos as famílias em insegurança alimentar MODERADA (a qual também afeta sensivelmente o desenvolvimento cognitivo) esses númetos ultrapassam 6.000 famílias.

Além de dimensionar a vulnerabilidade, a comparação mostra algo importante: mecanismos de proteção social podem exercer papel relevante na segurança alimentar das famílias mais vulneráveis.

Mas o que esses números realmente significam?

Para compreender o problema com rigor, é importante explicar também o que os números não significam. O CadINSAN não afirma que 13,7% de toda a população de Sete Lagoas esteja passando fome. Também não significa que pesquisadores tenham visitado cada uma dessas famílias e constatado diretamente a ausência de alimentos. O indicador foi desenvolvido pelo governo federal para estimar o risco de insegurança alimentar grave entre famílias inscritas no Cadastro Único, utilizando características socioeconômicas associadas à vulnerabilidade alimentar.

Essa precisão importa.

Pesquisas nacionais como a PNAD são fundamentais para conhecermos a situação do país e dos estados, mas não permitem estimar diretamente a insegurança alimentar de cada município brasileiro com a mesma confiabilidade. O CadINSAN foi criado justamente para ajudar a preencher essa lacuna, pois precisamos conhecer em detalhes e corretamente um problema para somente depois desenvolvermos estratégias de enfrentamento.

Fome não significa apenas não ter nada para comer

Quando pensamos em uma criança com fome, normalmente imaginamos a situação mais extrema: ausência de alimento, emagrecimento ou sinais evidentes de desnutrição.

Essa é uma das faces do problema, mas certamente não é a única. Uma família pode conseguir colocar alguma comida na mesa todos os dias e, ainda assim, não ter acesso regular a uma alimentação suficientemente variada e nutritiva. É o que vemos na prática: um consumo até exagerado de calorias e ver as famílias privadas de nutrientes considerados essenciais para o adequado desenvolvimento. No eixo central do problema um conjunto de fatores: restrições financeiras, alimentos mais baratos, de alta densidade calórica e menor qualidade nutricional vem substituíndo progressivamente alimentos mais diversificados.

Exatamente por estes e outros pontos importantes desta equação é que não podemos resumir a soluçao da insegurança alimentar a uma única pergunta: "Existe alguma coisa para comer?"

Precisamos perguntar também:

Há alimento suficiente?

Ele está disponível todos os dias?

A alimentação é variada e nutricionalmente adequada?

A família consegue manter esse padrão ao longo do tempo?

Para uma criança em desenvolvimento, essas perguntas assumem importância ainda maior.

Quando a privação alimentar se prolonga

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura considera a fome crônica uma incapacidade persistente, ao longo do tempo, de atender às necessidades mínimas de energia alimentar. Mas é importante não confundir conceitos: o CadINSAN de Sete Lagoas mede risco de insegurança alimentar grave, e não a prevalência municipal de fome crônica infantil. Essa diferença metodológica não diminui a importância do problema. Pelo contrário: é através da discussão técnica de conceitos que surgem as discussões mais precisas sobre o tema. O UNICEF utiliza ainda o conceito de pobreza alimentar infantil para chamar atenção para crianças pequenas que não conseguem acessar e consumir uma dieta suficientemente nutritiva e diversificada.

A infância é uma fase de intenso crescimento físico e desenvolvimento cerebral. Uma alimentação inadequada nesse período pode comprometer crescimento, saúde e desenvolvimento cognitivo. Exatamente por isso a insegurança alimentar infantil não pode ser tratada apenas como um problema assistencial. Ela afeta as crianças globalmente, sendo classicamente ocnsiderada um problema de saúde pública.

Sete Lagoas está fortalecendo sua resposta

Por mais que trabalhemos diuturnamente para enfrentar o problema da fome crônica, sabemos que nenhuma instituição isoladamente será capaz de resolver um problema dessa complexidade. O enfrentamento da insegurança alimentar exige proteção social, saúde, educação, alimentação escolar, agricultura, participação da comunidade, políticas públicas e atuação responsável da sociedade civil. Sete Lagoas tem pensado nestas questões e discutido propostaas de enfrentamento deste problema. Em maio de 2026, a Câmara Municipal aprovou por unanimidade a reestruturação do Conselho Municipal de Segurança Alimentar (COMSEA-SL) e a criação da Câmara Intersecretarial Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (CAISAN-SL). A nova organização recém estruturada procura ampliar a coordenação da política municipal de segurança alimentar e a participação da sociedade civil. O município também possui o Programa de Alimentação ao Menor (PAM), instituído pela Lei Municipal nº 9.631/2023.

Essas iniciativas mostram que o enfrentamento da insegurança alimentar precisa ser entendido como uma construção coletiva. É dentro desse ecossistema (e não em substituição a ele) que o Instituto David Sackett pretende contribuir.

E agora uma nova resposta começa a sair do chão

Quem está acompanhando o projeto Alimentando Sonhos cnos ultimos 03 anos, desde as discussões iniciais e entrevistas com famílias até o estágio atual da obra iniciada em Outubro de 2.025, conhece bem a complexidade do planejamento, dos projetos de pesquisa associados, reuniões, projetos técnicos, decisões de engenharia e encontros com a comunidade.

Agora, porém, algo mudou desde Outubro de 2.025: A Fábrica Social de Alimentos do projeto Alimentando Sonhos está se tornando fisicamente visível em Sete Lagoas. A construção está avançando como planejado: as fundações finalizadas e agora iniciando a segunda etapa da obra. Um projeto discutido à exaustão por quase 03 anos finalmente começa a ganhar corpo, ganhar paredes, estruturas e dimensões reais. Não obstante temos plena consciência de que a Fábrica Social de Alimentos é apenas o início de diversas etapas do projeto Alimentando Sonhos, entretanto um passo essencial para a execução e sustentabilidade do Projeto Alimentando Sonhos, projeto desenvolvido pelo Instituto David Sackett para estudar e enfrentar a insegurança alimentar infantil em populações vulneráveis de Sete Lagoas. A proposta combina uma intervenção nutricional estruturada com acompanhamento e avaliação dos participantes, visando prioritariamente avaliar o ganho no desenvolvimento cognitivo e de inteligência que a oferta adequada de alimentos nutricionalmente completos, saudáveis e minimamente processados podem trazer para as crianças em situação de fome crônica.

O objetivo não é apenas oferecer alimentos, mas sobretudo produzir conhecimento técnico e consistente para respondermos a uma questão muito mais ampla: uma intervenção nutricional estruturada pode melhorar indicadores de saúde e desenvolvimento cognitivo de crianças expostas à insegurança alimentar?

Boa intenção é indispensável. Mas precisamos saber se funciona.

Projetos sociais geralmente nascem de uma intenção legítima: melhorar a vida das pessoas e da comunidade onde vivemos. Sem entrar no mérito da nobreza de propósitos, o Instituto David Sackett nasceu ligado a outra tradição, mas que tem exatamente o mesmo objetivo: a Medicina Baseada em Evidências.

Não é por acaso que a nossa instituição carrreia o nome do Professor David Sackett. A autorização para uso legal do nome foi concedida pela Dra. Barbara Sackett e filhos do saudoso professor, tomando-se por base as décadas de pesquisas que executamos e que trouxe tantas informações relevantes, sempre considerando o axioma maior que o professor Sackett sempre ensinava: A Medicina deve melhorar a saúde das pessoas.

Aplicar esse princípio a um projeto social significa fazer perguntas que nem sempre são simples:

Quem realmente está sendo beneficiado?

Estamos chegando às famílias que mais precisam?

A intervenção está produzindo os resultados que imaginávamos?

Quais resultados conseguimos medir?

Quanto custa produzir esses resultados?

O que não funcionou como esperávamos?

O modelo pode ser melhorado?

Ele poderá ser reproduzido em outras comunidades?

Por isso, no Projeto Alimentando Sonhos, o acompanhamento e a mensuração não são elementos acessórios: é parte integrante e razão de ser do próprio projeto. As Boas intenções nos ensinam por que devemos agir. A evidência técnica nos ajuda a descobrir como efetivamente melhorar a saúde das pessoas.

Uma história que Sete Lagoas reconhece

Há também uma dimensão dessa história que não aparece nos bancos de dados, mas está na memória viva de boa parte dos Setelagoanos. Décadas atrás, o trabalho do Padre Adriano marcou a vida de muitos moradores de Sete Lagoas. Entre suas diversas iniciativas de grande impacto para melhoria da vida de Setelagoanos vivendo sob vulnerabilidade social, uma iniciativa marcou profundamente inúmeras famílias: A criação do projeto conhecido como Vaca Mecânica, a qual utilizava a soja na produção de alimento destinado a populações vulneráveis (o leite de soja).

O projeto Alimentando Sonhos não surgiu como uma reprodução daquele projeto. Esta é mais uma das incríveis coincidências que o destino nos traz. Muitos meses depois da concepção do projeto e já em vias de iniciar efetivamente a obra principal do projeto (a Fábrica Social de Alimentos) tomamos conhecimento desta incrível história de uma pessoa visionária que, dentro das importantes limitações de toda ordem e sem ainda o conhecimento técnico existente sobre alimentação saudável, minimamente processada e composição nutricional, foi criado o projeto da Vaca Mecânica, a qual certamente mudou o destino de milhares de famílias Setelagoanas vivendo em insegurança alimentar grave naquela época. O destino nos trouxe para uma coincidência carregada de significado: a área adquirida pelo Instituto para sua sede e para a Fábrica Social de Alimentos está localizada na região da antiga Fazenda Morro Vermelho, território associado ao início do trabalho missionário do Padre Adriano.

O propósito de hoje não é igual ao de décadas atrás: a ciência avançou, a saúde pública evoluiu, as ferramentas de avaliação são diferentes, mas uma questão permanece reconhecível e já aplicada pelo saudoso Padre Adriano: como uma comunidade responde quando parte de sua população não consegue acessar alimentação adequada? O que fazer para reverter essa situação?

Primeiro conhecer. Depois intervir. E então medir.

Este é apenas o começo de uma conversa que o Instituto David Sackett pretende ampliar com a população de Sete Lagoas. Nas próximas publicações, vamos trazer novos dados sobre insegurança alimentar, infância, envelhecimento, nutrição, determinantes sociais da saúde e sobre os dois projetos que estão sendo implantados na cidade. Também vamos continuar mostrando o avanço da Fábrica Social de Alimentos. Queremos que a comunidade Setelagoana participe deste processo do início até a completa operacionalização, que participe da sustentabilidade e acompanhe os resultados.

Queremos e vamos mostrar o processo, as etapas, as dificuldades, as decisões. Para nós, que trabalhamos com a saúde das pessoas a transparência e participação comunitária são elos imprescindíveis desta corrente e fazem parte do processo. Hoje, a Fábrica Social de Alimentos ainda está em construção e agora é justamente o melhor momento para Sete Lagoas começar a acompanhar o que está acontecendo. A insegurança alimentar é uma questão de saúde pública frequentemente invisível para uma parte da sociedade, pois muitos nao convivem com o problema ou não vivenciam situações no dia a dia que trazem esta questão à tona.

Acompanhe o Projeto Alimentando Sonhos

Acompanhe pelo site do Instituto David Sackett o avanço da Fábrica Social de Alimentos, a implantação do projeto e as próximas publicações sobre insegurança alimentar em Sete Lagoas.

Dr. Gilmar Reis MD, PhD - Diretor Científico - Brazilian Biomedical Research institute - Instituto David Sackett

Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/3225749859383169


ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4847-1034

Data Criação: 23/ 08/ 2026

Data Atualização: 23/ 08/2026

Conteúdo institucional e informativo, produzido com base em evidências científicas, fontes públicas oficiais e publicações acadêmicas dos cientistas associados ao Instituto. Não substitui orientação médica.

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