A segurança alimentar do idoso: um desafio global que exige ações locais
À medida que o mundo envelhece, cresce também a preocupação com a segurança alimentar das pessoas idosas, um direito humano essencial e ainda distante de ser plenamente garantido. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), entre 720 e 811 milhões de pessoas em todo o planeta enfrentavam a fome em 2020. Entre elas, milhões são idosos que, além da vulnerabilidade econômica, sofrem com o isolamento social e as limitações físicas que dificultam o acesso regular a alimentos de qualidade.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que o envelhecimento populacional altera profundamente os padrões de saúde e nutrição. Com o metabolismo reduzido e maior necessidade de micronutrientes, os idosos dependem de dietas equilibradas, ricas em proteínas, vitaminas e minerais. Contudo, em muitas regiões, o alto custo dos alimentos e a fragilidade das redes de proteção social expõem esse grupo ao risco da desnutrição e de doenças relacionadas à má alimentação. O relatório The State of Food Security and Nutrition in the World reforça: a fome entre idosos não é apenas falta de comida, mas falta de acesso a alimentos adequados, seguros e nutritivos.
O panorama brasileiro
No Brasil, embora os avanços sociais das últimas décadas tenham reduzido a fome extrema, a insegurança alimentar permanece como uma ferida aberta. Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 27,6% dos domicílios brasileiros, o equivalente a mais de 21 milhões de lares, apresentavam algum grau de insegurança alimentar em 2023. Desses, quase 10% viviam situação moderada ou grave.
Entre a população idosa, a realidade é ainda mais preocupante. Pesquisas apontam que cerca de um terço das famílias com pessoas idosas enfrenta algum nível de insegurança alimentar. Esse quadro combina dois extremos: desnutrição e obesidade. De acordo com estudos do Ministério da Saúde, cerca de 12% dos idosos brasileiros estão abaixo do peso adequado, enquanto mais de 50% apresentam sobrepeso, reflexo de uma alimentação desequilibrada e de baixo valor nutricional.
Esses números escancaram o desafio: o país que produziu políticas de referência no combate à fome ainda não consegue proteger integralmente um de seus grupos mais vulneráveis. Renda insuficiente, dificuldade de mobilidade, isolamento e doenças crônicas são fatores que comprometem o acesso regular a uma alimentação adequada.
Minas Gerais: avanços e desafios
Em Minas Gerais, o cenário reflete a complexidade nacional. O Estado abriga cerca de 3,6 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, aproximadamente 17,8% da população. O V Plano Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável (2021-2023) definiu diretrizes importantes, priorizando o direito humano à alimentação adequada e políticas integradas de saúde, assistência social e agricultura familiar.
Ainda assim, estimativas recentes apontam que 4,5 milhões de mineiros vivem em domicílios com algum grau de insegurança alimentar. O dado evidencia que a fome e a má nutrição não são exclusividade de regiões carentes: elas também afetam cidades de médio porte e áreas urbanas com crescente envelhecimento populacional.
Sete Lagoas: quando o problema é local
Em Sete Lagoas, município com mais de 240 mil habitantes, a questão alimentar tem ganhado relevância crescente nas agendas sociais e comunitárias. Iniciativas como hortas urbanas e projetos de redistribuição de alimentos vêm tentando suprir lacunas que políticas públicas sozinhas não conseguem preencher. Uma das ações mais simbólicas é a horta comunitária de 24 km de extensão, que gera renda para centenas de famílias e fornece alimento a mais de 800 pessoas em situação de vulnerabilidade.
Contudo, os idosos permanecem entre os grupos menos visíveis nas estatísticas locais. Muitos vivem sozinhos, com aposentadorias limitadas, e enfrentam barreiras para acesso a alimentos frescos e saudáveis. O envelhecimento da população de Sete Lagoas exige políticas específicas, integradas à saúde e à assistência social, para garantir que essa parcela da população não seja deixada para trás.
O papel essencial das instituições sem fins lucrativos
A experiência mostra que, quando Estado e sociedade civil caminham juntos, os resultados são mais duradouros. Em contextos de restrição orçamentária e descontinuidade de programas públicos, o papel das instituições sem fins lucrativos torna-se indispensável.
Organizações da sociedade civil, como o Brazilian Biomedical Research Institute (David Sackett Research Institute), assumem protagonismo ao articular ciência, pesquisa e ação social. Atuando de forma apartidária e baseada em evidências, essas entidades podem identificar vulnerabilidades, apoiar políticas locais de segurança alimentar e desenvolver programas de impacto direto, desde a distribuição de alimentos saudáveis até o acompanhamento nutricional de populações idosas em risco.
O Instituto defende que a segurança alimentar deve ser tratada como questão de saúde pública e dignidade humana. O acesso regular a alimentos adequados não é caridade: é direito fundamental, sustentado por compromissos internacionais e pela Constituição brasileira. Ao integrar ciência, inovação e solidariedade, iniciativas desse tipo fortalecem a rede de proteção social e ampliam a capacidade de resposta dos municípios diante das desigualdades alimentares.
Cuidar de quem cuidou de nós
Garantir segurança alimentar ao idoso significa, em última instância, retribuir dignidade a quem construiu nossa sociedade. É assegurar que o envelhecimento não seja sinônimo de exclusão, mas de cuidado, autonomia e bem-estar.
Em Sete Lagoas, assim como em milhares de cidades brasileiras, a fome entre idosos não se resolve apenas com programas emergenciais. Ela exige políticas duradouras, baseadas em evidências científicas e sustentadas por parcerias entre poder público, universidades, setor privado e organizações da sociedade civil.
O desafio é enorme, mas a direção é clara: nenhum idoso deve envelhecer com fome. A segurança alimentar é o primeiro passo para um envelhecimento saudável, ativo e humano, e o compromisso de todos nós, independentemente de ideologias ou circunstâncias políticas.

