Desigualdade e Fome: o retrato de uma realidade que ainda persiste no Brasil

1. A situação do problema

Os dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD/IBGE, 2025) revelam um cenário preocupante: mesmo com a recuperação da renda média nacional após a pandemia, a desigualdade entre trabalhadores formais e informais voltou a crescer. O índice de Gini da renda domiciliar, indicador clássico de desigualdade, atingiu 0,514 no segundo trimestre de 2025 ? um patamar que expõe a dificuldade de parte expressiva da população brasileira em garantir condições básicas de vida.

O Gráfico 6 da Carta de Conjuntura do Ipea (3º trimestre de 2025) mostra de forma clara que esse aumento da desigualdade tem um rosto definido: ele está concentrado entre os trabalhadores do setor privado sem carteira assinada ? a chamada "população invisível" do mercado de trabalho. Para este grupo, o índice de Gini subiu de 0,511 para 0,518 apenas entre os dois primeiros trimestres de 2025, consolidando-se como o segmento mais desigual e vulnerável da economia brasileira.

Esse contingente é formado majoritariamente por pessoas de baixa renda, residentes nas periferias urbanas, com baixa escolaridade e vínculos informais ou precários. São trabalhadores que sustentam a economia real ? diaristas, vendedores ambulantes, motoboys, prestadores de serviços domésticos, pequenos agricultores ? mas que permanecem sem acesso à proteção social, previdenciária e, muitas vezes, sem o mínimo de segurança alimentar.

2. Os dados que agravam a vulnerabilidade

Segundo o relatório da PNAD, 22,9% dos domicílios brasileiros não possuem renda proveniente do trabalho. Em outras palavras, quase um quarto das famílias depende de programas sociais, bicos, doações ou ajuda informal para sobreviver. E, mesmo entre os que trabalham, o rendimento habitual dos informais permanece muito abaixo da média nacional, que foi de R$ 3.484,00 no trimestre móvel encerrado em julho de 2025.

Esse distanciamento entre a renda dos trabalhadores com e sem carteira assinada aprofunda a desigualdade estrutural. Enquanto os empregados formais tiveram aumento real médio de 2,3%, os informais, apesar de um crescimento aparente de 6,8%, partem de uma base muito mais baixa e sem estabilidade ? o que significa mais volatilidade e insegurança financeira.

Além disso, as regiões mais pobres ? especialmente o Nordeste e o Norte ? seguem apresentando rendas médias 30% inferiores às do Sudeste. O relatório também aponta que os idosos e as mulheres continuam entre os grupos mais penalizados: a renda média habitual das mulheres é 17% menor do que a dos homens, e os trabalhadores acima de 60 anos registraram queda de 5,5% em 2025.

Esse conjunto de fatores cria um círculo vicioso de pobreza: menos renda significa menor capacidade de consumo, o que compromete a nutrição, o acesso à saúde, à educação e à mobilidade. Assim, a desigualdade de renda transforma-se diretamente em desigualdade de oportunidades ? e o impacto mais cruel dessa realidade recai sobre as crianças e os idosos.

3. O impacto na segurança alimentar de crianças e idosos

A insegurança alimentar é uma das manifestações mais graves da desigualdade social. Quando o rendimento cai, a primeira despesa a ser reduzida nas famílias é a alimentação. E, quando há pouco dinheiro, as escolhas alimentares tornam-se mais baratas ? e menos nutritivas. O resultado é o aumento da fome crônica e da desnutrição silenciosa, especialmente entre crianças em fase de crescimento e idosos em situação de vulnerabilidade.

Estudos da FAO e da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que o acesso a alimentos adequados e saudáveis é um dos determinantes mais diretos da expectativa de vida e do desenvolvimento cognitivo. No Brasil, segundo dados complementares do VIGISAN (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar), mais de 33 milhões de pessoas vivem hoje em situação de fome, e cerca de 58% dos lares convivem com algum grau de insegurança alimentar.

Esses números dialogam com os dados do IBGE: os domicílios sem renda do trabalho estão concentrados justamente nas faixas de renda muito baixa e baixa, onde o gasto com alimentação consome a maior parte do orçamento familiar. Nessas casas, carne, frutas, legumes e leite são substituídos por alimentos ultraprocessados e baratos, o que compromete a saúde e perpetua doenças como anemia, obesidade infantil e hipertensão precoce.

Entre os idosos, a desigualdade de renda agrava um outro problema: a solidão alimentar. Muitos aposentados, especialmente os que vivem sozinhos ou sustentam famílias multigeracionais, veem seus rendimentos insuficientes para suprir necessidades básicas, o que leva à redução da qualidade e da quantidade de refeições. A fome, nesse caso, não é apenas fisiológica ? é também social.

4. Caminhos para mudar o cenário: o papel do Instituto David Sackett e do Projeto Alimentando Sonhos

Diante desse panorama, torna-se evidente que combater a desigualdade é também combater a fome. E esse desafio não pode ser delegado apenas ao poder público: ele requer o engajamento da sociedade civil, das empresas e das instituições científicas.

É nesse contexto que surge o Projeto Alimentando Sonhos, iniciativa do Instituto David Sackett, sediado em Sete Lagoas (MG). O projeto está dando forma a um sonho coletivo: construir uma fábrica social de alimentos destinada à produção de misturas nutritivas à base de soja, banana e outros ingredientes de alto valor biológico, voltadas principalmente para crianças e idosos em situação de vulnerabilidade.

Mais do que um programa de social de doação de alimentos, o projeto Alimentando Sonhos é uma proposta de solução sustentável de segurança alimentar. É uma união da ciência, responsabilidade social e desenvolvimento local, envolvendo engenheiros, nutricionistas, médicos, pesquisadores e voluntários da própria comunidade. A obra da fábrica está sendo conduzida com rigor técnico e transparência, como mostrado nas atualizações publicadas no site www.dsackett.org, onde é possível acompanhar o progresso e contribuir diretamente com doações e parcerias.

O projeto simboliza um modelo de inovação social baseada em evidências ? inspirado nos princípios do médico e pesquisador David Sackett, pioneiro da medicina baseada em evidências. A missão do Instituto é clara: gerar impacto mensurável, com base científica, para transformar vidas de forma real e duradoura.

Um chamado à ação

Os números da PNAD/IBGE deixam claro que o Brasil ainda convive com desigualdades profundas, e que a recuperação econômica não alcança a todos. Mas também mostram que há espaço para transformar a realidade ? quando ciência, solidariedade e gestão eficiente se unem.

O Instituto David Sackett convida cada pessoa, empresa e instituição a se tornar parte dessa transformação. Contribuir para o Alimentando Sonhos é mais do que doar: é participar da construção de um futuro onde nenhuma criança durma com fome e nenhum idoso precise escolher entre comer ou comprar remédios.

Em um país que produz alimento suficiente para alimentar o mundo, a fome é uma escolha coletiva ? e também pode ser uma escolha coletiva combatê-la.

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