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Autores: Profs. Raul Cutait e Geyze Diniz

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Em um mundo que produz comida suficiente para todos, 10% da população segue sem ter o que comer. No Brasil, um dos maiores produtores de alimentos do planeta, mais de 50 milhões vivem insegurança alimentar e 6,4 milhões enfrentam fome, o que expõe com clareza uma das facetas mais cruéis de nossas desigualdades.

Estudo do Instituto Pacto Contra a Fome revela que no Brasil são desperdiçadas 55 milhões de toneladas de alimentos por ano, ao longo de toda a cadeia, da plantação às casas, o que inclui o descarte de alimentos perfeitos para consumo, mas fora do "padrão estético" e, com isso, com baixo valor comercial.

As consequências da fome são profundas. Crianças mal alimentadas têm acentuados prejuízos em seu desenvolvimento neuronal, o que acarreta prejuízos em seu desenvolvimento físico, intelectual, emocional e mesmo de sociabilidade, o que no futuro irá dificultar ou mesmo impedir uma eventual mobilidade social. Por outro lado, adultos têm comprometidas sua qualidade de vida pessoal e profissional. Mais ainda, a fome leva a doenças que sobrecarregam o sistema público de saúde, alimenta ciclos de violência e gera desencanto com a vida.

Diante desse cenário, iniciativas no Brasil e no mundo mostram caminhos possíveis. Dentre outras, citam-se a FAO, organismo da ONU, que atua na redução de perdas pós-colheita; o Unicef, que fortalece a nutrição na primeira infância; o Pacto Contra a Fome, que mobiliza diversos setores para mudanças estruturais; o programa Alimentar o Futuro, da Fiesp, com várias parcerias, que busca melhorar a qualidade da alimentação em creches e escolas públicas. Definitivamente, essas iniciativas, quando articuladas, têm grande potencial transformador.

Combater a fome não é caridade, mas imperativo ético; é um hercúleo desafio social e econômico que requer mais que medidas emergenciais, ou seja, ações que englobam políticas públicas estruturantes e permanentes. Para tanto, exige-se coragem e mobilização, tanto governamental quanto da sociedade civil.

Neste período de festas, quando abundância e solidariedade se encontram, somos chamados a refletir: enquanto celebramos, milhões de brasileiros não têm o básico. Façamos simples gestos, como doar alimentos, porém, mais do que isso, pensemos em como fazer parte de uma grande mudança social, devotando tempo, recursos ou conhecimento a uma causa que faz a diferença para muita gente.

Que cada um de nós seja um agente transformador, transformando indignação em ação. Mobilizemos a nós mesmos, nossas famílias, comunidades, empresas e façamos parte de uma causa nobre e necessária, pois comer, e bem, não é privilégio: dá dignidade e é um direito de cada cidadão!

TENDÊNCIAS / DEBATES

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