O custo invisível do dinheiro que não chega: quando bilhões deixam de se transformar em oportunidades
Quando números bilionários encontram vidas que precisam de muito pouco
R$ 1 milhão. R$ 1 bilhão. R$ 10 bilhões.
Quando cifras dessa magnitude aparecem nas notícias, elas frequentemente perdem significado. Tornam-se números abstratos, distantes da vida cotidiana. Mas dinheiro público nunca é apenas um número em uma planilha. Por trás de cada real existe uma possibilidade: alimentar uma criança, manter uma escola, oferecer uma consulta, construir uma rede de saneamento, financiar ciência ou criar condições para que uma família consiga romper um ciclo de pobreza.
Por isso, quando recursos são perdidos por corrupção, fraude ou desvio, quando uma empresa controlada pelo Estado acumula prejuízos ou quando políticas que movimentam bilhões não produzem resultados proporcionais ao investimento realizado, a consequência não termina nos balanços públicos.
Alguém, em algum lugar, deixa de receber aquilo que poderia ter recebido. É o Estado deixando de cumprir com suas obrigações perante os seus concidadãos. E são justamente as famílias mais vulneráveis que têm menor capacidade de substituir, com recursos próprios, aquilo que o Estado ou a sociedade organizada deixam de oferecer.
Essa talvez seja uma das dimensões menos discutidas da corrupção e da ineficiência: o seu custo humano.
Quanto custa a corrupção? A resposta exige cuidado
É tentador procurar um único número que responda à pergunta: "quanto o Brasil perde por ano com corrupção?".
Esse número, entretanto, não existe de maneira oficial e incontroversa. Corrupção é, por definição, uma atividade que procura permanecer oculta. Fraudes descobertas representam apenas aquilo que foi identificado. Além disso, corrupção, desperdício, ineficiência administrativa, renúncia fiscal, subsídio público e prejuízo de uma empresa estatal são fenômenos econômicos completamente diferentes. Somá-los indiscriminadamente produziria um número impressionante, mas cientificamente inadequado.
Há, entretanto, números concretos que ajudam a compreender a dimensão do problema.
A Controladoria-Geral da União (CGU) informa que realizou 76 operações especiais em 2025, nas quais foram apurados aproximadamente R$ 13,6 bilhões em prejuízos. Foi um valor excepcionalmente elevado: desde 2003, as operações especiais com participação da CGU somam cerca de R$ 19,45 bilhões em prejuízos apurados, sendo grande parte concentrada justamente em 2025.
São números oficiais. E representam apenas aquilo que chegou ao alcance das operações realizadas pelos órgãos de controle.
Ao mesmo tempo, o dado traz uma mensagem importante de esperança institucional: controlar funciona.
Quando fiscalizar também significa devolver oportunidades
Em 2025, as auditorias da CGU produziram R$ 40,61 bilhões em benefícios financeiros aprovados.
A expressão "benefício financeiro" possui definição técnica. Não significa que R$ 40,61 bilhões tenham simplesmente retornado em dinheiro aos cofres públicos. Inclui economias, correções, prevenção de pagamentos indevidos, melhoria de processos e outros resultados financeiros decorrentes das recomendações de auditoria.
O número, porém, é extraordinariamente revelador. A própria CGU calcula que, em 2025, foram produzidos cerca de R$ 30,50 em benefícios financeiros para cada real empregado no funcionamento do órgão. Entre 2012 e 2025, os benefícios financeiros contabilizados pela Controladoria ultrapassaram R$ 185 bilhões.
Em outras palavras, a mesma discussão que revela perdas também demonstra que transparência, auditoria, integridade e controle podem produzir resultados concretos.
Essa talvez seja uma das lições mais importantes desse debate: a resposta à má utilização do dinheiro público não é desistir das instituições, mas fazê-las funcionar melhor.
Quando falta rastreabilidade
Outro exemplo contemporâneo envolve as chamadas "Emendas Pix". Em relatório encaminhado ao Supremo Tribunal Federal em julho de 2026, o Tribunal de Contas da União analisou uma amostra de 100 transferências destinadas a 74 entes federados, envolvendo R$ 198,1 milhões. As irregularidades encontradas levaram o Supremo Tribunal Federal, em agosto de 2026, a determinar que a Polícia Federal verificasse a existência de indícios de crimes na execução dessas transferências.
É fundamental compreender a diferença: irregularidade administrativa não significa automaticamente corrupção, e investigação não significa condenação.
Mas o episódio coloca no centro do debate uma palavra essencial: rastreabilidade.
Quem recebeu?
Quanto recebeu?
Para quê?
O recurso foi aplicado na finalidade informada?
E, finalmente, que resultado produziu para a população?
São perguntas aparentemente simples. Mas deveriam acompanhar cada real destinado a uma política pública ou a um projeto social.
Empresas estatais e a necessidade de medir resultados
A discussão sobre utilização eficiente dos recursos também alcança as empresas controladas pelo Estado.
Segundo o Tribunal de Contas da União, as empresas estatais não dependentes consideradas no Programa de Dispêndios Globais registraram déficit primário de R$ 5,1 bilhões em 2025. Das 21 empresas avaliadas, 11 apresentaram déficit.
Esse número exige interpretação cuidadosa.
Déficit primário de uma estatal não é sinônimo de corrupção, tampouco demonstra, isoladamente, incompetência administrativa. Empresas públicas podem desempenhar funções estratégicas ou sociais cuja avaliação não pode ser feita exclusivamente pela lucratividade. Mas isso não elimina uma pergunta legítima: qual resultado a sociedade recebe pelos recursos empregados?
O caso dos Correios ajuda a dimensionar o problema. Segundo o TCU, a empresa apresentou aproximadamente R$ 8,5 bilhões de prejuízo líquido em 2025 e patrimônio líquido negativo de R$ 13,16 bilhões. O Tribunal também registrou riscos relacionados à necessidade de financiamento da empresa e à possibilidade de novos aportes ou empréstimos.
Mais uma vez, não se trata de classificar automaticamente prejuízo como desperdício. Trata-se de reconhecer que recursos são finitos. Quando bilhões precisam ser destinados à recuperação de uma organização deficitária, esses bilhões passam a ter um custo de oportunidade.
A sociedade precisa perguntar não apenas quanto custa, mas também qual benefício recebe em contrapartida.
R$ 678 bilhões: o cuidado necessário com outro número gigantesco
Existe ainda outra cifra capaz de impressionar. Em 2024, os subsídios da União alcançaram R$ 678 bilhões, correspondentes a 5,78% do Produto Interno Bruto brasileiro. Mais de 83% eram benefícios tributários; os demais estavam relacionados a subsídios financeiros e creditícios.
Seria profundamente equivocado chamar esses R$ 678 bilhões de desperdício.
O Simples Nacional, políticas destinadas à agricultura, fundos regionais, financiamento estudantil e diferentes instrumentos de política econômica fazem parte desse universo. Muitos possuem objetivos sociais ou econômicos legítimos. Mas a magnitude do número levanta outra questão fundamental: avaliamos adequadamente o resultado produzido por todos esses benefícios?
O próprio Ministério do Planejamento tem defendido a revisão dos gastos e subsídios e a avaliação de sua efetividade.
Essa é uma discussão diferente daquela sobre corrupção, mas existe um princípio comum: recursos públicos devem ser acompanhados de avaliação de resultados.
O custo da corrupção que não aparece na investigação
Se os valores efetivamente descobertos já impressionam, existe uma segunda dimensão muito mais difícil de mensurar.
Estudo histórico da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, posteriormente citado em trabalhos acadêmicos da Fundação Getulio Vargas, estimou que o custo da corrupção no Brasil poderia corresponder, naquele período, a aproximadamente 1,38% a 2,3% do PIB por ano.
É importante destacar: trata-se de estimativa, baseada em metodologia econômica e referente ao período analisado, e não de dinheiro cuja subtração tenha sido comprovada contabilmente.
Seu significado é outro: A corrupção não custa à sociedade apenas o valor que desaparece. Ela pode aumentar preços, reduzir concorrência, direcionar investimentos para projetos menos eficientes, diminuir produtividade, deteriorar instituições e afastar investimentos.
Uma obra superfaturada custa mais do que o dinheiro superfaturado. Ela também representa tudo aquilo que deixou de ser construído com a diferença.
É o chamado custo de oportunidade.
A corrupção também possui endereço social
Quando uma família possui renda elevada, consegue compensar parcialmente as deficiências dos serviços públicos. Pode contratar assistência médica, pagar uma escola, comprar alimentos de qualidade e viver em uma região com infraestrutura adequada. Tal padrão não permite perceber realmente qual é a eficiência real dos serviços públicos.
Uma família em extrema vulnerabilidade não possui essa alternativa e passa a depender exclusivamente do poder público e seus serviços. Por isso, a consequência da corrupção, da fraude e da ineficiência não é socialmente neutra, pois afeta vitalmente as parcelas vulneráveis da sociedade. Quanto maior a dependência de políticas públicas, maior pode ser o impacto daquilo que deixa de chegar.
Uma criança não conhece orçamento público. Ela não sabe o que é resultado primário, subsídio tributário, emenda parlamentar ou governança corporativa.
Ela conhece a fome.
Conhece a sala de aula em que não consegue se concentrar.
Conhece a casa onde a comida acaba antes do final do mês.
E seu organismo conhece, mesmo que ela não saiba explicar, a deficiência de proteínas, vitaminas, minerais e outros nutrientes necessários ao crescimento.
É nesse momento que bilhões deixam de ser abstrações.
Quanto vale uma oportunidade?
Imagine R$ 1 bilhão.
Dividido por 1 milhão de crianças, corresponde a R$ 1.000 por criança.
R$ 10 bilhões corresponderiam, matematicamente, aos mesmos R$ 1.000 para 10 milhões de crianças. Os R$ 13,6 bilhões em prejuízos apurados nas operações especiais da CGU em 2025, se utilizados apenas como exercício de equivalência, representam R$ 1.000 para 13,6 milhões de pessoas.
Isso não significa que esses recursos poderiam simplesmente ser transferidos para alimentação infantil. Orçamentos públicos não funcionam dessa maneira, e seria incorreto sugerir essa equivalência. A comparação serve para outra finalidade: permitir que nossa mente compreenda a dimensão destes números.
Quando falamos em bilhões, estamos falando de milhões de oportunidades individuais.
Do gasto ao resultado: uma ideia que deveria ser simples
Existe uma diferença fundamental entre perguntar:
Quanto distribuímos?
e perguntar:
O que mudou?
Essa diferença está no centro da filosofia do Brazilian Biomedical Research Institute ? Instituto David Sackett. No Projeto Alimentando Sonhos, nosso propósito não é simplesmente produzir alimentos e contabilizar quantas porções foram distribuídas. Queremos saber mais, como por exemplo saber se a intervenção funciona. Queremos acompanhar o estado nutricional das crianças, seu crescimento e indicadores relacionados ao desenvolvimento. Queremos compreender se uma alimentação de melhor qualidade pode repercutir na capacidade cognitiva, na aprendizagem e, ao longo do tempo, nas oportunidades que essas crianças terão. É algo muito maior do que somente oferecer alimentos, isto porque temos conciência de que entregar alguma coisa não significa necessariamente transformar uma realidade.
E gastar dinheiro também não significa necessariamente produzir benefício.
Transparência é mais do que publicar uma planilha
Transparência costuma ser entendida como demonstrar onde o dinheiro foi gasto. Esta é uma etapa fundamental em quaisquer projetos, mas insuficiente. Para nós, do instituto Davis Sackett existe uma segunda dimensão a qual tem até maior importância do que a simples prestação de contas: demonstrar o que aconteceu com as pessoas depois que o recurso foi utilizado. Se um projeto recebe R$ 1 milhão e apresenta todas as notas fiscais corretamente, sabemos onde o dinheiro foi gasto, mas precisamos dar mais respostas:
Quantas pessoas foram beneficiadas?
O benefício pretendido ocorreu?
Qual foi sua magnitude?
Ele permaneceu ao longo do tempo?
Havia uma maneira mais eficiente de alcançar o mesmo resultado?
Essas perguntas pertencem tanto à ciência quanto à administração pública.
O princípio de David Sackett aplicado aos problemas sociais
David Sackett ajudou a transformar a medicina ao defender que decisões importantes deveriam ser confrontadas com as melhores evidências disponíveis. E ele foi além: que estas evidências possam refletir a melhoria de vida, do cuidado, e do bem estar das populações. Durante décadas, a medicina prescreveu intervenções simplesmente porque pareciam funcionar, porque sempre haviam sido utilizadas ou porque especialistas acreditavam nelas.
A Medicina Baseada em Evidências mudou essa lógica, trazendo perguntas até então não relevantes para os cientistas: funciona? Quanto funciona? Para quem funciona? Quais são os riscos? Qual é a qualidade da evidência?
Somos partidários do contingente de cientistas que queremos trazer esta disciplina da pesquisa para os projetos relevantes e afeitos aos grandes problemas sociais. Não baasta uma política parecer boa, um projeto possuir uma intenção nobre, gastar recursos para colocar o projeto em andamento. Precisamos saber se funcionou, qual foi o benefício, se este benefício justifica o investimento ou não.
Projetos sociais também precisam prestar contas dos resultados
O terceiro setor não deve se colocar fora dessa discussão, muito pelo contrário: Instituições que recebem doações possuem uma responsabilidade adicional: demonstrar ao doador que sua confiança foi transformada em benefício social. Isso significa governança, transparência financeira e integridade., mas vai além e precisa também trazer a relevância da mensuração de impacto: Como realmente o projeto mudou a vida das pessoas.
O doador deveria poder conhecer não apenas quanto foi arrecadado e onde o recurso foi empregado, mas também qual transformação aquele recurso ajudou a produzir. É esse princípio que queremos incorporar ao Alimentando Sonhos.
O Brasil não precisa escolher entre indignação e esperança
Os números apresentados nesta reportagem são incômodos e temos plena consciência disso. R$ 13,6 bilhões em prejuízos apurados em operações especiais. R$ 8,5 bilhões de prejuízo líquido em uma única empresa estatal. Centenas de milhões de reais em transferências cuja rastreabilidade precisou ser objeto de auditoria. Centenas de bilhões em subsídios que exigem permanente avaliação de efetividade.
Mas existe outro número que não deve ser esquecido:
R$ 40,61 bilhões.
Esse foi o valor dos benefícios financeiros aprovados pela CGU em 2025 a partir de auditorias e recomendações. É a demonstração de que instituições de controle podem funcionar, acompanhar o uso dos recursos públicos e de que corrigir eventuais distorções é plenamente possível. A transparência certamente produz valor, confiança, respeitabilidade e credibilidade. E de que a resposta à perda de recursos não precisa ser apenas indignação. Pode ser melhoria.
O dinheiro que chega precisa transformar
O Brasil possui enormes desafios sociais e recursos limitados diante deles. Por isso, cada real perdido para corrupção, fraude ou desperdício representa mais do que uma irregularidade financeira, pois representa uma possibilidade que desapareceu, a falência de uma proposta antes mesmo de ser colocada em prática.
Da mesma forma, cada real aplicado sem avaliação de resultado representa uma pergunta que ficou sem resposta. Não pretendemos sugerir que os recursos mencionados nesta reportagem poderiam simplesmente ser transferidos de suas finalidades para projetos sociais. A realidade orçamentária é muito mais complexa. Aqui a minha reflexão é outra: Em um país onde ainda existem crianças convivendo com insegurança alimentar, famílias sem saneamento adequado e pessoas aguardando serviços essenciais, a sociedade não pode se dar ao luxo de perder recursos nem de desconhecer os resultados daquilo que financia.
Este desafio não pertence a um governo, partido, Congresso, tribunal ou período histórico, mas pertence a todos nós, cidadãos que cumprem com as suas obrigações, pagando impostos e contribuíndo para o crescimento do país.
Talvez a verdadeira medida de transparência não seja apenas descobrir para onde foi o dinheiro.
Transparência é também descobrir o que aconteceu com a vida das pessoas depois que ele chegou.
Associate Professor of Medicine, McMaster University - Hamilton, Canada
Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/3225749859383169
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4847-1034
Data de publicação: 05/ 09/ 2026
Data da última atualização: 05/ 09/ 2026
Transparência editorial: Esta reportagem descreve um projeto social em fase de implantação. Resultados clínicos, nutricionais, cognitivos ou educacionais ainda não foram demonstrados e não são apresentados aqui como benefícios comprovados. os indicadores e métodos definitivos de avaliação serão estabelecidos antes da análise de resultados
Conteúdo institucional e informativo, produzido com base em evidências científicas, fontes públicas oficiais e publicações acadêmicas pertinentes. Não substitui orientação médica.
Veja nossa política editorial, transparência e governança institucional
This work is licensed under CC BY-NC-SA 4.0

